Xangô e seus homens lutavam com inimigos implacáveis. Os guerreiros de Xangô, capturados pelo inimigo, eram mutilados e torturados até a morte, sem piedade ou compaixão. As atrocidades já não tinham limites, o inimigo mandava entregar a Xangô seus homens aos pedaços, desesperado e enfurecido, Xangô subiu no alto de uma pedreira perto do acampamento, consultou Orunmilá sobre o que fazer, pedindo ajuda. Xangô irado começou a bater nas pedras com o oxé, seu machado duplo, o machado arrancava das pedras faíscas acendendo no ar famintas línguas de fogo, que devoravam os soldados inimigos. A guerra perdida foi se transformando em vitória, assim Xangô a venceu, os chefes inimigos que haviam ordenado o massacre, foram todos dizimados por um raio que Xangô disparou no auge da fúria. Os soldados inimigos que sobreviveram foram poupados por Xangô, sendo admirado e cantado por todos pela sua atitude e justiça. Através de séculos, os orixás e os homens têm recorrido a Xangô para resolver todo tipo de pendência, julgar as discordâncias e administrar a justiça.

Xangô um dia cansou-se da monotonia da corte e partiu em busca de novas aventuras, chegou a Irê, onde morava Ogum, nobre guerreiro, senhor da forja que vivia com Inhansã, senhora dos ventos e das tempestades. Xangô apreciava ver o trabalho de Ogum na forja e sempre arriscava olhar para a mulher, driblando a vigilância do ferreiro. Inhansã por sua vez, encantava-se com o porte e a nobreza de Xangô , um dia fugiram e chegaram a Oió, lá reinava o meio irmão de Xangô, Dadá Ajacá. Dadá deixou que Xangô o ajudasse no comando do reino, nas terras de Oió, Xangô fundou Cossó , seu reino próprio, sendo chamado Obá Cossó, Rei de Cossó. Assim, o reino de Dadá expandiu-se por força de Xangô, que um dia destronou seu irmão, tornando-se o senhor absoluto e o povo aclamava: “Kabiysi Xangô , Alafin Oió Alaveluwa!!!”, Viva sua majestade Xangô, dono do palácio de Oió e senhor das terras!!!”

Xangô ergueu seu palácio com esplendor, teve mulheres e muitos filhos, sempre acompanhado de Inhansã, Oxum sendo sua segunda mulher, seguida de Obá. Dadà Baiani Ajacá era irmão mais velho de Xangô, de caráter pacífico deixava para seu irmão o poder de enfrentar as lutas e maledicências que o incomodavam. Xangô defendia o irmão com gana furiosa, ele dava grandes festas no palácio Oió e a elas todo povo acorria, quando todos se prostavam no chão para saudar Xangô, eram impedidos e mandados saudar primeiro seu irmão mais velho. Até hoje, quando se louva Xangô, é por habito saudar Dadá Baiani, assim Xangô sempre estará satisfeito. Dadá também é senhor de muitas riquezas e propicia tudo isso a seus devotos.

Xangô vivia entre inimigos, o que podia fazer para derrotá-los, foi dito a ele que fizesse um ebó, mas o que oferecer a Babalaô, ofereceu muitos búzios, dois galos, dois pombos, doze pedras, doze pavios de lamparina e doze bastões. Xangô reuniu essas coisas e fez o sacrifício, que apazigou os deuses, terminando o sacrifício, ele voltou à guerra com os inimigos, no pavio da lamparina ele acendeu o fogo que jorrou de sua boca e ele trazia na mão o machado duplo de fazer trovão e ninguém mais podia enfrentá-lo. Xangô venceu a guerra, quando chegou todos o aclamavam: “Kawô, Xangô!!!”, “Salva Xangô!!!”, “Kabyesi, Kawô!!!”, “Abram alas para sua majestade!!!” e “E kabó!!!”, “Bem vindo!!!” Todos aqueles que nunca haviam saudado Xangô, agora o faziam com muito entusiasmo e ele dançava em regozijo.

Os inimigos queriam acabar com Xangô a qualquer custo, se ele caísse em mãos inimigas, lhe cortariam a cabeça, então Xangô foi se esconder na casa de Oiá. Os inimigos sitiaram a casa e não havia como ele escapar, então Oiá teve uma idéia de vestí-lo com suas roupas de mulher, cortando seus cabelos e cobrindo a cabeça de Xangô, ornou-o com apuro, com muitos colares, anéis e pulseiras. Oiá anunciou que ia sair para um passeio, mas Xangô que saiu no lugar dela todo enfeitado, todos acreditaram, vendo ela formosa e deslumbrante em seus ricos trajes e abrindo caminho para Oiá. Quando mais tarde, Oiá saia a rua, todos deram conta do engordo, mas era tarde demais, Xangô escapara e da morte se livrava. A astúcia de Oiá livrou Xangô dos inimigos, ela tinha muito ciúme de Xangô e o queria só para si, ardilosa, pôs em prática um plano a fim de aprisionar ele em sua casa. Chamou os mortos, de quem era a rainha e os pôs de sentinela pela casa toda, toda vez que Xangô tentava sair da casa, os eguns se aproximavam dele, que amedrontado desistia do intento. Um dia Oiá ausentou-se e Oxum foi visitar Xangô, ele contou-lhe o que estava acontecendo, assim Oxum buscou uma garrafa de aguardente, uma garrafa de mel e efum, com o otim embebedou o morto que guardava a porta e com mel adoçou um outro, fazendo com que por ela se apaixonasse. Enquanto isso, Xangô pintando com o efum, todo coberto de giz, branco como egum, saiu da casa passando desapercebido por entre os mortos.

Em épocas remotas, havia um homem a quem Olorum Exú ensinava todos os segredos do mundo, para que pudesse fazer o bem e o mal como bem entendesse. Os deuses que governavam o mundo, Obatalá, Xangô e Ifá , determinaram que por ter se tornado feiticeiro tão poderoso, o homem deveria oferecer uma grande festa para os deuses, mas eles já estavam fartos de comer comida crua e fria, queriam uma coisa diferente, comida quente e cozida, mas naquele tempo nenhum homem sabia fazer fogo e muito menos cozinhar. Reconhecendo a própria capacidade de satisfazer os deuses, o homem foi até a encruzilhada e pediu ajuda a Exú, esperou três dias e três noites sem nenhum sinal, até que ouviu uns estalos na mata, eram as árvores que pareciam estar rindo dele, esfregando seus galhos umas contra as outras. Ele não gostou nada dessa brincadeira e invocou Xangô, que o ajudou lançando uma chuva de raios sobre as árvores, alguns galhos incendiados foram decepados e lançados ao chão, onde queimara até restar só as brasas. O homem apanhou algumas brasas e as cobriu com gravetos, abafando tudo colocando terra por cima. Algum tempo depois, ao descobrir o montinho, o homem viu pequenas lascas pretas, era carvão. O homem dispôs os pedaços de carvão entre pedras e os acendeu com a brasa que restara, depois soprou até ver flamejar o fogo, assim cozinhando os alimentos, inspirado e protegido por Xangô, o homem inventou o fogão e pode satisfazer as ordens dos três grandes orixás. Os orixás comeram a comida e gostaram muito, permitindo ao homem comer também.

Xangô teve muitas mulheres e com muitas teve filhos, cada filho que ele fazia, ele deixava com Iemanjá para criar, ela não conseguia nunca vê-lo, pois ele deixava as crianças e ia embora. Então Iemanjá se pôs a procurar Xangô por toda a cidade, mas em cada lugar Xangô usava um nome diferente, assim ela não conseguia encontrá-lo, aqui chamava-se Badé, ali Obá Cossó , mais adiante Gowocô , como Iemanjá só perguntava por Xangô, nunca ninguém dava notícias. Finalmente, depois de tanta procura, um dia Iemanjá o encontrou e nunca mais deixou que ele fugisse, casando-se com ele.

Dia: Quarta feira

Comida: Amalá

Cor: Vermelho e branco

Saudação: Kawô Kabiesile
 
 
 
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